A partir de 1º de setembro de 2024, o cenário das criptomoedas no Vietnã passará por mudanças significativas para quem atua nesse mercado. O governo em Hanói promulgou um novo conjunto de regulamentações com o objetivo de trazer clareza — mas também gerando inúmeras dúvidas. Em essência, o foco é conter os excessos no setor de criptoativos: fraudes, lavagem de dinheiro e bolhas especulativas descontroladas devem ser refreadas. Ao mesmo tempo, surge o debate sobre quem será beneficiado — ou prejudicado — por essas novas normas.
Quem precisa se registrar — e por quê?
O Decreto 69/2024/ND-CP é o primeiro esforço sério do Vietnã para estabelecer um marco legal para as criptomoedas. Até então, a situação jurídica era tão nebulosa quanto uma manhã de verão vietnamita: era possível negociar Bitcoin e outras moedas digitais, mas ninguém sabia exatamente o que era permitido ou não. Agora, o "território jurídico de ninguém" chegou ao fim.
A partir de setembro, todas as empresas e profissionais envolvidos com criptomoedas — incluindo exchanges, provedores de carteiras digitais e até empresas que operam infraestruturas blockchain — deverão se registrar no Banco do Estado do Vietnã (SBV). Quem não cumprir a determinação corre o risco de ter seu negócio paralisado. Para os usuários comuns, isso significa que, no futuro, será necessário apresentar identificação para negociar criptoativos.
A implementação de Know Your Customer (KYC) é um dos pontos mais polêmicos. Agora, qualquer pessoa que possua ou negocie ativos digitais terá que compartilhar seus dados pessoais, assim como ocorre nos bancos tradicionais. Enquanto o governo argumenta que essa medida dificulta a lavagem de dinheiro e o financiamento do terrorismo, os críticos questionam: por que sacrificar a privacidade para coibir alguns maus atores?
Outro aspecto crucial diz respeito aos tokens. A partir de setembro, somente as criptomoedas aprovadas explicitamente pelo SBV poderão ser negociadas. Especialistas preveem que Bitcoin, Ethereum e alguns stablecoins devem receber licenciamento, enquanto inúmeros outros projetos poderão ser banidos do mercado.
Pequenos projetos sofrem — quem realmente ganha?
Para alguns, as novas regras são motivo de comemoração: finalmente há regulamentação e, consequentemente, mais segurança. Para outros, é um golpe fatal à inovação. Startups e projetos descentralizados
serão os mais afetados. As exigências são complexas, demoradas e onerosas — muitas vezes inviáveis para pequenas empresas.
"O Vietnã tinha uma cena cripto muito vibrante nos últimos anos", diz Le Minh Tuan, analista de criptomoedas local, enquanto tomamos café em Hanói. "Mas com essas regras, o país pode ficar para trás em comparação ao Tailândia ou Singapura, que lidam com ativos digitais de forma muito mais liberal".
Nguyen Thi Lan Anh, entusiasta de criptomoedas em Da Nang, também expressa sua preocupação: "Se apenas algumas moedas forem permitidas, o mercado perderá atratividade. As pessoas vão migrar para plataformas estrangeiras — e nós não poderemos fiscalizá-las".
Combater fraudes ou penalizar os errados?
Um dos principais objetivos das novas regras é reduzir os inúmeros casos de fraude que assolaram o mercado nos últimos anos — desde ICOs fraudulentos até esquemas de pirâmide que deixaram investidores no prejuízo. O governo busca mais transparência e fiscalização rigorosa, o que, à primeira vista, parece razoável.
No entanto, especialistas mantêm-se céticos. "Criminosos sempre encontram meios de burlar regulamentações", comenta Tran Duc Thang, consultor de blockchain em Ho Chi Minh. "A questão é: essas novas regras protegem realmente os investidores honestos ou simplesmente tornam tudo mais caro e complicado?"
Para onde o Vietnã está indo com sua política de criptomoedas?
Enquanto países como El Salvador adotam o Bitcoin como moeda legal, o Vietnã opta pelo controle em vez da liberdade. Se essa abordagem será bem-sucedida, só o tempo dirá. Por um lado, o novo sistema pode aumentar a confiança — especialmente entre grandes investidores. Por outro, o país corre o risco de perder talentos e projetos inovadores para o exterior.
Para os entusiastas vietnamitas de criptomoedas, resta a esperança de que o governo faça ajustes após um período de transição. "É um passo na direção certa", afirma Le Minh Tuan. "Mas ainda há muito a ser feito para transformar o Vietnã em um polo atrativo para o mercado cripto".
Uma coisa é certa: a partir de setembro, o sistema financeiro digital do Vietnã passará por uma transformação profunda. Se as novas regras trarão mais segurança ou se serão um fardo pesado demais para os investidores, só os próximos meses poderão mostrar. Contudo, já está claro: quem atua com criptomoedas no Vietnã não poderá ignorar as novas normas.
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