As acusações não são brincadeira. O Ministério Público acusa o Snapchat de ter criado, intencionalmente, uma máquina de vício que captura especialmente usuários jovens. Fala-se de algoritmos que recompensam a rolagem excessiva e de funcionalidades como os “Snapstreaks”, que colocam adolescentes em um ciclo vicioso de constante disponibilidade e medo de perder algo. O resultado? Falta de sono, problemas de concentração, isolamento social. Conheço histórias de jovens que trocam mensagens até altas horas da madrugada só para não perder suas “streaks” — e, consequentemente, chegam esgotados às aulas. Isso não é coincidência; é sistema.
O mais cruel: a ação judicial mostra que o Snapchat sabia perfeitamente o que estava fazendo. Documentos internos e estudos comprovam que a empresa ignorou avisos por anos. Um estudo de 2022? 68% dos adolescentes entrevistados disseram se sentir estressados ou sobrecarregados pela app. Mesmo assim… continuou igual. A ação chega a falar em “desinteresse consciente” — um termo duro que me lembra outros setores da indústria que, por anos, ignoram riscos até a pressão se tornar insustentável.
O Snapchat rebate com frases de praxe: “Nós implementamos medidas de proteção à juventude! Limites de tempo de tela! Conteúdos adequados à idade!” Sim, tudo muito bonito. Mas quem já viu um adolescente controlar seu próprio tempo de tela? Ou algoritmos projetados para maximizar o tempo de uso tornarem-se “amigáveis par
a crianças” da noite para o dia? A realidade é outra: a função “Snapstreak” é um mestre na manipulação psicológica — recompensa diária para os ativos, estresse diário para os demais. E a própria empresa admite que essas funcionalidades podem ter “efeitos colaterais não intencionais”. Bem, pelo menos eles reconhecem algo.
Mas a ação vai mais fundo. Não se limita a criticar recursos específicos, mas ataca o próprio modelo de negócio. A Pensilvânia acusa o Snapchat de projetar sua plataforma para promover uso excessivo entre menores — sabendo plenamente as consequências. Isso é um ataque às raízes do problema: a economia do vício nas mídias sociais. E é justamente isso que torna o caso tão explosivo. Especialistas já falam em um precedente que poderia se espalhar. Se a Pensilvânia vencer na Justiça, dezenas de outros estados poderão entrar com ações semelhantes. E, de repente, não apenas o Snapchat, mas também Instagram, TikTok e outros enfrentarão a mesma pergunta: será que precisamos repensar nosso modelo de negócios?
O setor tecnológico já treme. As ações do Snapchat caíram mais de 5% após a notícia da ação judicial. E isso é só o começo. Esse processo pode desencadear uma avalanche — semelhante às grandes ações contra a indústria do tabaco ou aos embates jurídicos contra a indústria farmacêutica. O debate sobre a responsabilidade das mídias sociais pela saúde mental de seus usuários atingiu um novo patamar. A UE já mostrou, com o Digital Services Act, que está disposta a agir com mais rigor. Nos EUA? Até agora, a legislação tem ficado atrás — mas isso pode mudar.
Para muitas famílias, essa ação chega tarde demais. Mas talvez seja exatamente o alerta que a indústria precisa. Talvez seja o momento em que finalmente fica claro: algoritmos que promovem vícios não são uma questão menor. Eles destroem vidas. E já passou da hora de empresas como o Snapchat serem responsabilizadas por isso.
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