O governo irlandês, liderado pelo ministro das Finanças Michael McGrath e pelo banco central, desenvolveu um pacote completo de regulamentações que será implementado progressivamente a partir de agora. Um ponto central: a introdução de verificações reforçadas ("enhanced checks"). Pode parecer técnico, mas é uma verdadeira intensificação. Até agora, as carteiras cripto privadas eram muitas vezes um ponto cego – difícil de rastrear quem está por trás. Agora, instituições financeiras e exchanges de cripto devem verificar, em cada transação, se a carteira está associada a um utilizador conhecido ou a um endereço suspeito. Parece lógico, certo? Afinal, ninguém quer que a Irlanda se torne um centro de lavagem de dinheiro ou financiamento do terrorismo.
Mas aqui está o problema: bancos e prestadores de serviços de pagamento terão, no futuro, de demonstrar, em cada levantamento de moedas cripto, que o endereço do destinatário pertence a um ator regulado. Para utilizadores que gerem as suas próprias moedas, isto pode tornar-se um desafio. Conor O’Driscoll, diretor executivo da Associação Blockchain da Irlanda, resume bem a questão: "As carteiras privadas são um elemento central das criptomoedas – rotulá-las automaticamente como suspeitas mina o princípio fundamental da descentralização." Ele teme que as novas regras acabem por prejudicar, sobretudo, as startups e pequenas empresas, que já lutam com custos elevados de conformidade.
Empresas internacionais no alvo — e críticas do setor
Outra grande vertente da estratégia diz respeito a transações com empresas cripto estrangeiras. Até agora, as devidas diligências (due diligence) nestes casos eram muitas vezes falhas – um prato cheio para lavadores de dinheiro que usavam empresas offshore para branquear fundos ilícitos. Mas isso acabo
u. A partir de agora, empresas irlandesas terão de demonstrar, em cada relação comercial com uma empresa cripto estrangeira, que esta cumpre os mesmos padrões anti-lavagem de dinheiro que as empresas nacionais.
Cécile Sourbes, diretora do Banco Central da Irlanda para supervisão financeira, deixa claro: "Não aceitaremos negócios com empresas sediadas em países que constem das listas cinzentas ou negras do GAFI." Países como as Bahamas ou Malta, que no passado foram criticados pela falta de controlos AML (anti-money laundering), podem agora ser evitados por empresas irlandesas. Parece rigoroso? É mesmo. Mas o governo vê nisto um passo necessário para manter o sistema financeiro irlandês limpo.
No entanto, nem todos estão entusiasmados. O setor cripto adverte que uma sobre-regulamentação pode inibir a inovação e conduzir empresas a mudarem-se para o estrangeiro. "Estas medidas são bem-intencionadas, mas atingem sobretudo os errados", diz O’Driscoll. Há ainda críticas de que as novas regras podem afetar utilizadores que gerem os seus próprios ativos. Defensores da privacidade também manifestam preocupações: as verificações detalhadas podem levar a uma vigilância massiva de utilizadores de cripto – um claro contraste com os princípios da privacidade financeira.
Poderá a Irlanda tornar-se um exemplo para a Europa?
Apesar das críticas, o governo mantém-se firme. A partir do próximo ano, os primeiros controlos entrarão em vigor, e até 2025 todo o pacote deverá estar implementado. A Irlanda poderá assim tornar-se pioneira na UE, onde a regulação das criptomoedas continua um mosaico fragmentado.
A Comissão Europeia está a trabalhar numa regulamentação própria (MiCA), que deverá entrar em vigor apenas em 2024. Até lá, a Irlanda tem a oportunidade de se tornar um exemplo, incentivando outros países da UE a seguirem os seus passos.
O ministro das Finanças, McGrath, mantém-se otimista: "Esperamos que as nossas medidas sirvam de exemplo para outros países europeus. A lavagem de dinheiro não deve ter lugar – nem na Irlanda, nem em qualquer outro lugar." Se as novas regras vão realmente ter o efeito desejado ou, pelo contrário, vão travar a inovação, só o tempo dirá. Uma coisa é certa: a abordagem irlandesa às criptomoedas será, a partir de agora, muito mais rigorosa – e nem todos vão gostar.
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