Confesso que, ao ler sobre este pedido, fiquei inicialmente surpreso. A Chicago Board Options Exchange (Cboe) protocolou, na última sexta-feira, um pedido inovador à autoridade reguladora dos mercados norte-americanos, a SEC. O foco está em dois ETFs (Exchange-Traded Funds) inovadores: um 3x Long Bitcoin ETF e um 3x Long Ether ETF, ambos desenvolvidos pela Volatility Shares, um provedor especializado em ETFs alavancados e inversos. Com esta iniciativa, a Cboe envia um sinal claro: o mercado de produtos de alavancagem baseados em criptomoedas deve ser profissionalizado e acessível a um público mais amplo de investidores.
Um novo segmento de mercado emerge
Desde o lançamento dos ETFs à vista de Bitcoin em janeiro de 2024, o mercado de ETFs de criptomoedas tem evoluído rapidamente. Até agora, os produtos disponíveis se limitavam a ETFs Long e Short com alavancagem de 1x, ou seja, sem um efeito de alavancagem adicional. Os ETFs agora propostos pela Cboe e pela Volatility Shares romperiam este limite: eles permitiriam aos investidores obter, com um único produto, um retorno três vezes maior do que o dos ativos subjacentes – ou, no caso de ETFs Short (também planejados), apostar na queda dos preços.
"Este pedido marca um ponto de viragem", explica o Dr. Thomas Mayer, economista-chefe do Flossbach von Storch Research Institute. "Com ETFs alavancados de Bitcoin e Ether, o envolvimento em criptomoedas torna-se significativamente mais atraente para os investidores, mas também mais arriscado. Agora, a SEC enfrenta o desafio de equilibrar a proteção ao investidor com a inovação."
Como funcionam os ETFs 3x?
Os ETFs alavancados não replicam a performance diária de um ativo subjacente de forma 1:1, mas sim com um efeito de alavancagem fixo. Em um ETF 3x Long, por exemplo: se o Bitcoin subir 1% em um dia, o ETF subirá 3%. Se o preço cair 1%, o ETF perderá 3% – e este efeito pode ser dramático em mercados voláteis como o das criptomoedas.
O conceito de ETFs alavancados não é novo: em mercados tradicionais, como ações ou índices, tais produtos existem há anos. Contudo, no caso das criptomoedas, a alavancagem traz riscos adicionais. "A extrema volatilidade do Bitcoin e do Ether pode levar a uma rápida desvalorização dos ETFs, mesmo quando o ativo subjacente apresenta apenas flutuações moderadas", adverte o especialista financeiro Markus Koch. Além disso, existe o risco do "Volatility Drag": em
mercados lateralizados, os ETFs alavancados podem perder valor mesmo que o ativo subjacente não se mova.
Recordo-me das discussões de há alguns anos sobre produtos semelhantes no mercado de ações. Na altura, muitos especialistas alertaram para os perigos para investidores inexperientes. No caso das criptomoedas, cuja volatilidade é ainda mais extrema, a questão assume uma dimensão completamente diferente.
Barreiras regulatórias: por que a SEC poderia hesitar?
A SEC já manifestou, repetidamente, preocupações em relação aos ETFs alavancados, especialmente devido ao maior risco para investidores de varejo. "A autoridade poderia argumentar que os ETFs 3x são demasiado complexos e arriscados para o investidor médio", destaca o advogado Dr. Felix Höfer, do escritório CMS. Além disso, há preocupações quanto à manipulação de mercado e à liquidez, uma vez que tais produtos podem levar a oscilações extremas em fases de baixa liquidez.
Outro ponto crucial é a garantia física. Enquanto os ETFs à vista detêm Bitcoin diretamente, os ETFs alavancados utilizam instrumentos derivativos, como futuros ou swaps, para replicar o efeito de alavancagem. Isto levanta questões sobre transparência e controle sobre os ativos subjacentes.
Oportunidades e perigos para os investidores
Para investidores dispostos a assumir riscos, os novos ETFs poderiam ser uma forma atraente de lucrar com movimentos de curto prazo de mercado – sem a necessidade de comprar e custodiar criptomoedas diretamente. Investidores institucionais, como hedge funds ou family offices, poderiam, em particular, beneficiar da facilidade de negociação em bolsas regulamentadas.
No entanto, os riscos não devem ser subestimados. "Um ETF 3x sobre Bitcoin pode perder 50% ou mais de seu valor em poucos dias, mesmo que o Bitcoin sofra apenas uma ligeira queda", alerta a analista de criptomoedas Laura Walter. Além disso, os ETFs alavancados são, geralmente, adequados apenas para estratégias de curto prazo, pois não são concebidos para investidores buy and hold.
O que vem a seguir?
O pedido da Cboe será agora analisado pela SEC, um processo que pode levar meses ou até anos. Se a autoridade aprovar a proposta, os ETFs poderiam chegar ao mercado ainda em 2024 ou início de 2025.
Paralelamente, a Bolsa Nasdaq dos EUA também está desenvolvendo seus próprios ETFs alavancados de criptomoedas. A concorrência poderia aumentar a pressão sobre a SEC para permitir a inovação – desde que as preocupações regulatórias sejam resolvidas.
Conclusão: A introdução de ETFs 3x de Bitcoin e Ether seria um grande passo para a profissionalização do mercado de criptomoedas. Contudo, a decisão da SEC mostrará se a autoridade reguladora está disposta a assumir os riscos – ou se priorizará a proteção do investidor em detrimento da inovação.
📰 Leia também
→ Adam Back fracassa na Bitcoin Treasury: Mas as dívidas permanecem→ Zcash (ZEC) sobe 48% para mais de 800 dólares – Esperanças de ETF impulsionam a criptomoeda→ Bitcoin sobe 25% – Por que o Ministério da Fazenda está mexendo nos mercados com um truque